Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A América poética dos "misfits" e das naves espaciais

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.07.10

 

Terminei um post recente a dizer que a linguagem do cinema consegue revelar mais do que a linguagem escrita. Como é que entenderíamos, por exemplo, o que o Pedro aqui nos diz dos inadapatados de uma forma tão poética, se não tivéssemos visto o filme?

Já coloquei a navegar neste rio os misfits da América, da América actual, onde não há espaço para encontrar um papel definido e viver uma história tranquila. O protagonista desse vale é um cowboy fora da época e da sua lógica intrínseca, já não tem território. Aliás, já não há lugar para essa liberdade de escapar à voracidade dos subúrbios, das habitações, dos carros, dos ruídos, do consumo, nem escapar à lógica do dinheiro, da droga e do sexo, numa alienação decadente.

N’ Os Inadaptados de John Huston há ainda uma ténue esperança, mesmo que aliada ao desencanto e à tristeza. Mas ainda não é a violência do vazio existencial desse vale invadido pelas pessoas. N’ Os Inadaptados podem estar a despedir-se, magnífica visão poética do Pedro, mas ainda é de liberdade e de espaço livre que estamos a falar. Os cavalos selvagens, símbolo maior dessa liberdade, são soltos das cordas que os prendem. A cena em que a rapariga começa a gritar, naquele terreno deserto e muito branco, onde Huston gosta de ver as suas personagens, é mesmo arrepiante. É talvez a cena mais forte do filme. N’ Os Inadaptados, como disse, há gritos, olhares tristes, pressente-se a solidão, mas ainda há espaço para esse grito e esse olhar.

Hoje, nesse vale, é o vazio, plana-se, sem consistência física, numa realidade que não se aceita e onde não se cabe. Por isso o protagonista fica fascinado com o cenário da equipa de filmagens: eu até me adaptava a este trabalho… sempre é mais fácil ser personagem do que viver um papel na vida real.

 

É certo que, olhando para trás, Marilyn sempre me pareceu uma personagem de filme. E se fosse mesmo honesta comigo própria, admitiria também sentir por vezes vontade de escapar à vida real e refugiar-me nos cenários poéticos dos filmes dos anos 60. Poderia ser até num filme de ficção científica, n’ O Dia em Que a Terra Parou, mas no original de 1951, não no remake. Contracenar com a Patricia Neal e com o actor inglês, Michael Rennie, que entra tão bem na pele de visitante extra-terrestre… O que eu gosto deste filme, vá-se lá saber porquê!

Aqui se prova que a tecnologia não é suficiente para conseguir uma atmosfera e construir uma obra de arte. A tecnologia - e mesmo a verosimilhança dos acontecimentos, e não me estou a referir à visita extra-terrestre -, não chega para criar um filme com esta frescura do olhar, esta atmosfera, e isso ficou bem visível no remake.

Já repararam aqui no cenário nocturno? As sombras, os espaços, o silêncio, a tranquilidade? E também só possível numa visão de futuro muito optimista, não acham? Onde é que hoje encontramos, numa cidade, esse silêncio e essas noites misteriosas e tranquilas, tão poéticas? E onde é que hoje deixariam o robô em paz, sem tentar invadir os seus segredos e testar os seus poderes? Sem invadir, logo no início, a nave estacionada no jardim público? Impossível…

De onde se conclui facilmente que os nossos são tempos bárbaros em comparação com os anos 50 (que, ainda por cima, é a década do cinema preferida do Pedro). Que só progredimos em tecnologia, mas não em poesia, em humanidade, em respeito pelo espaço de cada um. Pensando bem, não somos hoje muito diferentes de uma qualquer tribo bélica do período medieval. Querem ver? Os militares colocariam um perímetro de segurança muito maior do que aquele que vemos no filme, os jornalistas plantar-se-iam em volta da nave como moscas, com os seus microfones ligados todo o dia e toda a noite, debitando banalidades para as respectivas televisões, e ouvir-se-ia o barulho ensurdecedor de helicópteros como vespões assassinos a rondar o lugar. Além disso, a protagonista seria uma cínica oportunista que não conseguiria perceber a mensagem do extra-terrestre, entregando-o aos militares, e o filho, um miúdo caprichoso e egocêntrico, incapaz de qualquer empatia. Bem, se tentarmos seguir mesmo o que é plausível, esse encontro com o extra-terrestre nunca se poderia efectuar assim sem consequências imprevisíveis e fatais: contágio mútuo de um qualquer vírus fatal, por exemplo.

Neste cenário poético (sim, Robert Wise antecipa, a meu ver, a atmosfera poética dos anos 60), é ainda possível respirar sossegadamente durante uns tempos, ainda que breves. E contracenar com personagens que sentem, estão vivas, acordadas. Ainda conheci essa atmosfera, e é dessa atmosfera poética que mais sinto falta. Restam-me os filmes… já não é mau. E, afinal, mais vale esta fuga, estes intervalos, do que a que nos propõem hoje: consumo de entretenimentos vazios e sem alma, conversas estéreis e de circunstância, ruídos vários de gente ansiosa e hiperactiva, correrias sem objectivo definido, fogos-fátuos em cenários plastificados.

 

 

 

Patricia Neal: parece que este único Patricia Neal aqui a navegar, antecipou em pouco mais de um mês a sua despedida. Mas este será, para mim, o seu papel de sempre. Desde que o vi pela primeira vez que ofuscou o seu Vontade Indómita (papel brilhante e tão sensual) e o seu Breakfast at Tiffany's (elegante e cínica). É que aqui, nesse Dia em que a Terra realmente parou, Patricia é essa mulher calma e segura do Bem e do Mal, do certo e do errado, como se saber distingui-los fosse a coisa mais natural deste mundo, mas não é! São cada vez mais raras as pessoas que se movem neste mundo e se relacionam assim, neste mundo, com os outros seus semelhantes, com esta simplicidade e honestidade. Cada vez mais raras. Talvez por isso esta personagem feminina me tenha fascinado tanto. Tem a lucidez e a sensibilidade suficientemente afinadas para ver realmente que o namorado tinha as prioridades trocadas. Tratou-se de escolher o lado certo, o do homem que se tinha colocado numa posição vulnerável para avisar os terrestres. São estes papéis que agora mais me fascinam: pessoas simples, que agem de forma discreta, correcta e responsável, diríamos normalíssimas, mas que afinal, são mais do que extraordinárias. E, como disse, cada vez mais raras.

(Esta é uma simples homenagem de um rio... a 9 de Agosto)

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:34


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D